“Confession d’un enfant du siècle”, de Sylvie Verheyde

Assim francês como inteiramente falado em inglês. Aqui começa, desde logo, o destino deste filme: uma viagem entre Paris e Londres; ou antes, entre dois homens distintos, entre o inferno e o amor, ou simplesmente, entre o bacanal e apenas uma.

Este fantasma que vive do passado de Octave, alimenta-se agora com Brigitte das desconfianças que o próprio lhe provoca. Mas ele crê, ainda assim, que o inferno vem do diário, dos segredos, do indesejado Mister Smith.

Ela consome veneno, que lhe passa através sexo ou da música que os seus dedos castos no piano fazem gemer, e que ele transforma em tiro levado até ao milímetro da proximidade da boca, com a qual nos diz: «eu não mais acreditava na possibilidade de amar».

confession-d-un-enfant-du-siecle-charlotte-gainsbourg

Brigitte parecia mudá-lo tal como a voz daquela bela jovem parecia sensibilizar o seu amigo. Mas no dia D e na hora H, nem Brigitte, nem ele mesmo! Ele não mudou: o medo falou por si.

Mas percebamos que ele é uma criança, que esta é uma confissão e que esta viagem idílica, antes de começar, acaba aqui.

confession-d-un-enfant-du-siecle-pete-doherty

Anúncios
Publicado em Sylvie Verheyde | Etiquetas , , , , , , , | Publicar um comentário

“Le refuge”, de François Ozon

E é então que ninguém compreende como ela deseja levar para a frente a gravidez do homem que morreu, do drogado, do seu companheiro de chuto. Um bebé que pode ser mesmo o fruto da injustiça de eles se drogarem juntos, ele morrer e ela não. Um castigo talvez até.

le refuge 6

Mas, na verdade, eu vou para a frente porque «sou curiosa»: quero saber de quem são os cabelos, de quem são os olhos, como será ele, ou ela! Então a história muda: depois de enterrar o pai, ela muda-se. Procura o refúgio que lhe traga a paz, o local onde possa continuar a ser a mesma, de uma forma mais calma. Mas o irmão dele vem também e tudo se troca: tu quer-lo, como quererias o Louis se ele fosse vivo. Mas Paul é bicha e anda com o Serge. Demasiado complicado, demasiado impossível.

Vamos antes à praia. Esquecer. Ignorar, o desejo que se mostra e te conduz aos caminhos que te fazem dizer, mais do que querias, “Joindre-moi!” [Junta-te a mim].

le refuge 7

Vocês tocam-se, os dois irmãos falsos unem-se, a herança perpassa. Tu foges, o bebé fica ao seu cuidado. Não é uma família feliz, foi a solução possível. Esse amor que se fala é tão irreal. Mas este bebé agora existe, por isso algo restará ainda…

le refuge 2

Publicado em François Ozon | Etiquetas , , , , , , , , | Publicar um comentário

“J’embrasse pas”, de André Téchiné

– «Eu não dou beijos»!

– Mas devias dar! Dar beijos podia-te salvar.

Image

É ele – Pierre, o homem ordinário – que começou do nada, que espera nada de nada, que vê nos outros mais que nada e que repete o nada, insistentemente, como matéria única pela qual se permite apaixonar. «Estou-me nas tintas!». Como resultado desta equação vazia, apenas a liberdade – que é no fundo garantir que se é algo sem estar dependente de nada –, no meio dos outros nojentos da sociedade sem que na tua fórmula matemática eles possam entrar. O ser somente ser. Ser ou não ser – já dizia Hamlet – e ele até decorou o discurso mas, sem o perceber, não o conseguiu aplicar. É daí que vem a questão.

Image

Portanto, foi fácil tornar-se puta. ÉS UMA PUTA! «Sou», ele responde. E sorri – nisso nada vê mal; é o seu emprego! No sexo encontrou a liberdade, porque a sua única contrapartida é o dinheiro, e o dinheiro é o espaço de ninguém. Um material de troca: eu dou, tu dás; nada mais há a falar.

Digo-te as minhas condições: Não dou beijos! Não me deixo fornicar. É pegar ou largar. (E para quem não possui nem pretende possuir, nada mais há a acrescentar.)

Com essa moeda e notas sujas, ele espera simplesmente existir, deixar-se andar. E na linguagem nem é preciso dizer mais nada, porque tu muito falas e eu pouco percebo. (Na verdade, «eu sou um refugo, não tenho tomates, sou um pobre merdoso»).

Só essa Mulher! Essa puta! Aquela que não é mais que as outras, não mais que os outros – uma prostituta, a melhor amiga do proxeneta, aquela que à primeira se encontra no bar. A PUTA! Por ela, te deixas finalmente enrabar.

Image

Tu bem sabias, tu desconfiavas: os sentimentos iam-te tramar!

Publicado em André Téchiné | Etiquetas , , , , , , | Publicar um comentário

“Portrait d’une jeune fille de la fin des années 60 à Bruxelles”, de Chantal Akerman

Decidi que a partir de agora serei rebelde e não volto ao liceu. Costumo roubar; roubei o meu pai e agora farei o que quero – mesmo passar por ele. «Queria desculpar…» mas ela enlouqueceu, pensaríamos. Talvez não. Apenas se libertou e agarrou-se à literatura de Sartre e, desde então, diz-se e desdiz-se de seguida. De qualquer forma, tudo é vazio, tudo é vago. Tudo perdeu o sentido. Assim sendo, posso amar agora, odiar daqui a bocado. Desejar agora, e desprezar depois. Sentar e estar farta de estar sentada. Por isso acho que estavas muito melhor com a minha amiga: ela é bonita, com os cabelos longos, … Mas ele desejava-a a ela e esfregava-lhe a perna insistentemente e a seguir perseguia-a.

portrait d'une jeune fille (2)

Disse-lhe que era o sexo que governava o mundo e ela até concordou mas, por agora, só queria ser beijada. «Porquê?», «Porque sim, não interessa dizer…». (E ele continuou porque percebeu que isto podia mudar). Vamos conhecendo Bruxelas enquanto eles erram pela cidade. Parece-nos que lá procuram tudo sem querer encontrar nada. E o dia tem sido longo – quase impossível de acabar – mas, apesar de tudo, ela pergunta-lhe «onde vais dormir?». Ele não sabe, não diz. Talvez esperando que seja primeiro ela a responder.

Vão à gare, beijam. Vão para cama, não dormem. Sexo tiveram, e foi para além do quase. O que daí resultou não sabemos mas percebemos amores dela pela amiga enquanto baila. E pouco mais: rebelde que é rebelde, não sei deixa explicar.

portrait d'une jeune fille

Não o voltamos a ver mas apesar de tudo teve sorte: com aqueles que não têm a mesma opinião que ela acerca de Sartre, ela não lhes costuma mais falar. Assim não foi, mas ela tratou de o desviar. O desertor não a impedirá de desertar.

Publicado em Chantal Akerman | Etiquetas , , , , | Publicar um comentário

“Funny Games”, de Michael Haneke

É de produção francesa e por aqui me fico quanto a explicações.

Até porque – convenhamos! – não há muito que se possa explicar daqui. Mas tentemos!

Comecemos pelo medo. Medo? Não. Medo não, porque tudo parece amistoso e além do mais são só uns ovos, e pedidos com educação, e da parte dos vizinhos – pessoas de bem, amigos de há anos.

Continuemos: luvas (brancas no verão)? Não, também não era problema. Meninos finos, meninos bem vestidos, meninos da alta mesmo… podem dar-se ao luxo destas excentricidades.

Tacos de ténis? Igualmente normal! Jogam com os nossos amigos e com os seus familiares.

Ai, não pode ser!: o telefone na água!! Já não bastava os ovos partidos…! Estou chateada! E agora? «Desculpe, sou um desastrado!… mas ao menos os ovos! Eu sei que tinha uma dúzia, mais quatro não lhe vão fazer falta!», «Aqui está. Desapareça, vá!»

É o cão a impedir-me de ir embora. É o taco que eu não pude experimentar… E vocês continuam a maltratar!? Ah!, que desagradável família! Não suportamos esta arrogância; temos que castigar! Joguemos um jogo: vocês entram obrigatoriamente, nós fazemos-vos reféns. É que nós adoramos jogar!

Mas afinal o que querem? Pergunta o Georg pai e com razão: esta brincadeira de adolescentes não tem piada!

Não era sequer para rir. Muito menos por dinheiro. É pelo gozo.

 funny games 1

«O que é que vocês acham? Devemos parar já?». Não interessa a resposta: o espectador não decide, quem vê não salva. De qualquer forma, quando amanhã forem 9, já nenhum de vocês cá estará e iremos brincar para outro lado.

 funny games 4

P.S.: O mundo é mesmo um local perverso.
Publicado em Michael Haneke | Etiquetas , , , , , , , | Publicar um comentário

“Un poison violent”, de Katell Quillévéré

Será mais assustadora a sexualidade ou a descoberta dela? Talvez ambas, quando são proibidas e indesejadas.

A Confirmação estava marcada; só eu não estava ainda preparada: os meus lábios, o meu peito, os meus genitais fazem-me coisas que me contrariam. Levam-me por onde não me deixaram, por onde não me falaram. Eu era uma menina bonita. Agora já não sei.

Mas ponho perfume, ponho a pulseira e faço-me atraente para desejos que quero ver satisfeitos, sem saber porquê. E abro a camisa, dou beijos, levanto o vestido. Tudo!, tudo o que não sei.

Ouvi agora a sua música belle comme moi! Isto também poderá ser gostar? Vou-me dar! Depois se verá.

Se me perguntarem, eu desmaio.

Dizem que uma cruz salva tudo. Não me salvou a mim: o pecado foi tão forte quanto a vontade. Eu não era um anjo e a juventude veio envenenada.

 

«Deixai-vos conduzir pelo Espírito!»…

P.S.: … Mas qual?

Publicado em Katell Quillévéré | Etiquetas , , , , , , , | Publicar um comentário

“Laurence Anyways”, de Xavier Dolan

Il ou elle? Ça intéresse pas! «Eu interesso-me é pela pessoa »… E, ainda assim, quando Laurence se questiona e se responde, todos se questionam, o amor fica em dúvida.

E o que não ficou em dúvida, desapareceu: o homem, o trabalho, a estabilidade. E aos outros, é um balde de água fria – ou melhor, uma enorme enxurrada de água pela cabeça abaixo –, que se vai o penteado e a compostura. Eram as mil e uma coisas que estragavam o nosso prazer, mas agora foste tu! Mas admiramos-te: é preciso ter tomates! Desses e desses, não dos outros…

«Mas isto não é uma revolta: é uma revolução!», «E a seguir? A paz no mundo?». «Não podemos ter tudo, e a ideia de perfeição que me quiseste mostrar é uma merda!» Vai! Que vá cada um à procura da sua identidade sem o outro…

Mudaram as estações, mudámos de sítios; até de chocolate e perspectivas de vida mas continuamos presos – correcção: presas – uma à outra, pelo que ficou sem mudar.

Ont sa va encore ensemble. É TUDO ROSAS, É TUDO CHUVA DE ROUPA, É TUDO PERFEITO!

No final, não acabaremos sozinhas porque as coisas não acabam: mudam. Como uma borboleta, começa como acabou e acaba como começou. Não se perde nada. Tudo se transforma.

Vomitemos para o enquadramento, para a definição de “especial” e “marginal”. Pavoneia-te como és! «Laurence anyways!».

P.S.: Há já muito que não via um filme tão incrível, tão maníaco, que cada detalhe é pensado ao pormenor. E isso é, sem dúvida, metade do fascínio deste filme: tudo é estupidamente belo!
Publicado em Xavier Dolan | Etiquetas , , , , , , , , , , , | Publicar um comentário