“L’inconnu du lac”, de Alain Guiraudie

Quando nos vimos pela primeira vez, estavas ocupado. Nem tão-pouco te pude dizer olá. O ciumento olhou logo por entre os arbustos, viu-me e eu fui-me. Sei que gosto sempre dos que não estão disponíveis. Desabafava com um outro desconhecido.

Desconhecido sim! Percebi logo no primeiro dia que era a regra por aqui. O lago, os corpos, o nú, a floresta, os arbustos e os genitais. Vemos tudo, sentimos cada parte, mas saber nomes não aqui.

Durante dias e dias a estacionar no mesmo lugar, até que por fim e finalmente acção. Havia esperado por isso mais que todos os outros. Não foi contudo sexo o que tive. Foi algo um pouco mais criminal. Vi-vos, vi-o, vi-te. Deixámos por completo de o ver e nos outros dias apenas o carro, a toalha, os ténis. Os restos – o que não quiseste – enfim…

Começámos a encontrar-nos depois da fronteira, a partir d’ali. A floresta era então só nossa, eu era só teu e nem o medo interrompia o prazer…

…Até que surgem o corpo, o helicóptero e o inspector. Começa logo por se apresentar. E disso sabemos a conclusão: problemas. Para ti e para mim. Que eu tudo sabia, que eu tudo vi.

Perguntas, sexo, conversas, jantares nunca acontecidos, dúvidas, mais sexo, interrogatórios, desconfianças, mergulhos, medo, nú, sexo novamente, medo, inspector, perguntas, verdade, morte, morte. Finalmente sós

Estou entre os arbustos e esforço-me por não respirar. Tu procuras-me, andas por aí… Quero fugir, fujo agora de ti. Michel, Michel?, chamei-te algum tempo depois, esperando não ter resposta.

Música? Nunca houve, silenciámo-nos sempre. Mais? Nunca quiseste. E hoje? Depois disto tudo, que queres ainda?

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Sobre Cinema Francês Visto em Português

Já muito se falou e continua e continuará a falar de cinema francês e, nesse sentido, pouco posso acrescentar teoricamente ao que já foi dito. Ainda assim, e porque sou teimosa, e porque gosto realmente muito de cinema francês, esta é a minha tentativa. Desculpo-me então vestindo-me de nietzschiana: "não há a coisa-em-si, há perspectivas", dizia ele. Não há cinema-em-si, há perspectivas. Esta é a minha, muito apaixonada e parcial e do meu "canto" como só assim poderia ser.
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