“La Vie d’Adèle”, de Abdellatif Kechiche

Não é o Brad Pitt, mas não é feio. Não fodemos ainda. Fá-lo-emos a seguir. Mas, não sei porquê, não me agrada. Havia qualquer coisa que me faltava. Era ela – a que passava, a que me olhou, me despertou; era o azul que sonhava, que queria ter agora aqui.

Lia Marivaux mas era a tua profecia que me fazia a arte de ser ainda mais bela, a mais solta, a mais viva. Sentia mais; sentia tudo quando te sentia a ti. Juntámos os nossos génios e descobrimos que uma outra arte – mais orgânica! – nos concordava enfim.

Não te podia mais querer. E nunca nada me pareceria tão breve quanto as longas horas intrincada em ti. Uma cola inquebrável e viscosa – como o da ostra, o teu prato preferido! – unia-nos em corpo e mente, num equilíbrio perfeito. Era um puzzle terminado, uma simbiose orgásmica, um quadro que não se discute, não se contesta porque é irrepreensível.

Só se encontrou drama na história fora dela. As diferenças. Os amigos, a família. Na arte, na literatura, mesmo na pintura – eu só me alongava, eras tu que fazias, pintavas e te apoderavas de mim. Mas acima de tudo eram os olhos e a voracidade de absorver isto tudo. Eu só quero ter-te, Emma, infinitamente. Não desejo mais que te ter a ti.

Ciúme foi a primeira coisa que te tive. E com ele – achava! – ia-te perdendo. Mas fui eu afinal que me perdi – na salsa, como uma puta, e de ti nem uma palavra, senão

“sai.

SAI.

SAI!

Dégage.

DÉGAGE,

DÉGAGE!!” – je te dis”.

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Como passou tanto tempo! Agora responsabilidade e estou mais velha. É certo que soltei o cabelo mas não sou capaz de ir mais. Chego sempre sozinha a casa. Eu mudei, mas és tu quem tem agora família. Sou professora, mas és tu que tens as crianças. Dão-me flores e beijos aos montes, mas sou eu que me sinto infeliz.

Se ainda te sentes, se ainda me sentes, é certo que me queres. Mas afinal não. “Não. Não posso. Já te disse.”. “Ternura!”. Ternura apenas.

“Sabes? Continuas nos quadros. Ali!”.

E via-vos juntas, vi esse abraço. Sei que fui a tua musa, sei que estou na tua tela, sei que cheguei ao quadro e que daí saí. A arte é uma morte e o amor é um fim.

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P.S.: Pela primeira vez, chorei depois de ver um filme. Também não acredito no amor.
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Sobre Cinema Francês Visto em Português

Já muito se falou e continua e continuará a falar de cinema francês e, nesse sentido, pouco posso acrescentar teoricamente ao que já foi dito. Ainda assim, e porque sou teimosa, e porque gosto realmente muito de cinema francês, esta é a minha tentativa. Desculpo-me então vestindo-me de nietzschiana: "não há a coisa-em-si, há perspectivas", dizia ele. Não há cinema-em-si, há perspectivas. Esta é a minha, muito apaixonada e parcial e do meu "canto" como só assim poderia ser.
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