“Train de vie”, de Radu Mihaileanu

E ele corria doido para o seu povo, exasperado para os avisar. Avisá-los que eles – como todos os judeus – estavam condenados a ser exportados, e que não voltariam, como não voltaram aqueles que já tinham ido e desses nem uma notícia, nem uma carta, nada. Instalava-se assim o medo no shtelt, onde se vivia a felicidade da música, da religião e de algumas pequenas coisas mais.

É preciso arranjar um plano, dizia o doido, deixando malucos os homens da comunidade. E não obstante, entre todos reinava a certeza que era preciso agir e encontrar forma de «salvar as crianças e os jovens, e os homens e mulheres também que eles precisam de pais, e, já agora, também os velhos! – que mal é que eles te fizeram?».

Sai ideia maluca, e vem de louco, mas o Ravi concorda. Teremos também um comboio, de deportação, mas para Israel. É um “faz-de-conta”. É a nossa salvação. É o comboio fantasma.

Toca a escolher os que vão fazer de nazis, a costurar-lhes as fardas cinza à medida, a aprender alemão sem pronúncia de gozo, a comprar as carruagens e a arrumar a trouxa, que se faz tarde!

Olha!, vem ali aquele tontinho! Agora é comunista. Não quer Deus, já nem quer a bela e anda aí a plantar revoluções materialistas meio-malucas. Não o ouçam! Mexam-se!, ENTREM NAS CARRUAGENS!

Começa a viagem e eis que os pseudo se tornam mesmo verdade: é os comunistas que pregam Marx, é o general que quer também ser um Führer e o doido que agora é filósofo e nos diz que o que fazem não é por Deus e que isso do Homem é uma ilusão – existe o Homem de verdade?

train de vie 2

Quis ao menos o doido encontrar o homónimo cigano e, com uma mescla humana e animal, continuou-se a viagem com mais algum sexo, música e liberdade.

O comboio partiu do mesmo sítio e todos juntos – sem ousarem deixar para trás um – fizeram a viagem. Separaram-se contudo depois: uns pela Rússia, outros pela Palestina, ou Índia e mesmo China e Estados Unidos.

E aos DOIDOS? Que lhes resta? QUEM SE PREOCUPA EM OS SALVAR?

train de vie 3

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Sobre Cinema Francês Visto em Português

Já muito se falou e continua e continuará a falar de cinema francês e, nesse sentido, pouco posso acrescentar teoricamente ao que já foi dito. Ainda assim, e porque sou teimosa, e porque gosto realmente muito de cinema francês, esta é a minha tentativa. Desculpo-me então vestindo-me de nietzschiana: "não há a coisa-em-si, há perspectivas", dizia ele. Não há cinema-em-si, há perspectivas. Esta é a minha, muito apaixonada e parcial e do meu "canto" como só assim poderia ser.
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