“J’embrasse pas”, de André Téchiné

– «Eu não dou beijos»!

– Mas devias dar! Dar beijos podia-te salvar.

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É ele – Pierre, o homem ordinário – que começou do nada, que espera nada de nada, que vê nos outros mais que nada e que repete o nada, insistentemente, como matéria única pela qual se permite apaixonar. «Estou-me nas tintas!». Como resultado desta equação vazia, apenas a liberdade – que é no fundo garantir que se é algo sem estar dependente de nada –, no meio dos outros nojentos da sociedade sem que na tua fórmula matemática eles possam entrar. O ser somente ser. Ser ou não ser – já dizia Hamlet – e ele até decorou o discurso mas, sem o perceber, não o conseguiu aplicar. É daí que vem a questão.

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Portanto, foi fácil tornar-se puta. ÉS UMA PUTA! «Sou», ele responde. E sorri – nisso nada vê mal; é o seu emprego! No sexo encontrou a liberdade, porque a sua única contrapartida é o dinheiro, e o dinheiro é o espaço de ninguém. Um material de troca: eu dou, tu dás; nada mais há a falar.

Digo-te as minhas condições: Não dou beijos! Não me deixo fornicar. É pegar ou largar. (E para quem não possui nem pretende possuir, nada mais há a acrescentar.)

Com essa moeda e notas sujas, ele espera simplesmente existir, deixar-se andar. E na linguagem nem é preciso dizer mais nada, porque tu muito falas e eu pouco percebo. (Na verdade, «eu sou um refugo, não tenho tomates, sou um pobre merdoso»).

Só essa Mulher! Essa puta! Aquela que não é mais que as outras, não mais que os outros – uma prostituta, a melhor amiga do proxeneta, aquela que à primeira se encontra no bar. A PUTA! Por ela, te deixas finalmente enrabar.

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Tu bem sabias, tu desconfiavas: os sentimentos iam-te tramar!

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Sobre Cinema Francês Visto em Português

Já muito se falou e continua e continuará a falar de cinema francês e, nesse sentido, pouco posso acrescentar teoricamente ao que já foi dito. Ainda assim, e porque sou teimosa, e porque gosto realmente muito de cinema francês, esta é a minha tentativa. Desculpo-me então vestindo-me de nietzschiana: "não há a coisa-em-si, há perspectivas", dizia ele. Não há cinema-em-si, há perspectivas. Esta é a minha, muito apaixonada e parcial e do meu "canto" como só assim poderia ser.
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