“Portrait d’une jeune fille de la fin des années 60 à Bruxelles”, de Chantal Akerman

Decidi que a partir de agora serei rebelde e não volto ao liceu. Costumo roubar; roubei o meu pai e agora farei o que quero – mesmo passar por ele. «Queria desculpar…» mas ela enlouqueceu, pensaríamos. Talvez não. Apenas se libertou e agarrou-se à literatura de Sartre e, desde então, diz-se e desdiz-se de seguida. De qualquer forma, tudo é vazio, tudo é vago. Tudo perdeu o sentido. Assim sendo, posso amar agora, odiar daqui a bocado. Desejar agora, e desprezar depois. Sentar e estar farta de estar sentada. Por isso acho que estavas muito melhor com a minha amiga: ela é bonita, com os cabelos longos, … Mas ele desejava-a a ela e esfregava-lhe a perna insistentemente e a seguir perseguia-a.

portrait d'une jeune fille (2)

Disse-lhe que era o sexo que governava o mundo e ela até concordou mas, por agora, só queria ser beijada. «Porquê?», «Porque sim, não interessa dizer…». (E ele continuou porque percebeu que isto podia mudar). Vamos conhecendo Bruxelas enquanto eles erram pela cidade. Parece-nos que lá procuram tudo sem querer encontrar nada. E o dia tem sido longo – quase impossível de acabar – mas, apesar de tudo, ela pergunta-lhe «onde vais dormir?». Ele não sabe, não diz. Talvez esperando que seja primeiro ela a responder.

Vão à gare, beijam. Vão para cama, não dormem. Sexo tiveram, e foi para além do quase. O que daí resultou não sabemos mas percebemos amores dela pela amiga enquanto baila. E pouco mais: rebelde que é rebelde, não sei deixa explicar.

portrait d'une jeune fille

Não o voltamos a ver mas apesar de tudo teve sorte: com aqueles que não têm a mesma opinião que ela acerca de Sartre, ela não lhes costuma mais falar. Assim não foi, mas ela tratou de o desviar. O desertor não a impedirá de desertar.

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Sobre Cinema Francês Visto em Português

Já muito se falou e continua e continuará a falar de cinema francês e, nesse sentido, pouco posso acrescentar teoricamente ao que já foi dito. Ainda assim, e porque sou teimosa, e porque gosto realmente muito de cinema francês, esta é a minha tentativa. Desculpo-me então vestindo-me de nietzschiana: "não há a coisa-em-si, há perspectivas", dizia ele. Não há cinema-em-si, há perspectivas. Esta é a minha, muito apaixonada e parcial e do meu "canto" como só assim poderia ser.
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