“L’enfer”, de Claude Chabrol

Apesar de tudo, um filme bucólico: o campo, o rio e o sol dia sim dia também. O cenário de um casamento perfeito que tinha tudo para assim continuar não fosse acontecer que, na maioria das vezes, paisagem e vida se desencontram.

Também em Chabrol a mulher fatal do cinema francês surge para dominar e conduzir a história e principalmente os homens… e, talvez, às vezes levá-los mais longe porque, como um destes personagens diz, «é o privilégio das mulheres bonitas: arruinar-nos»; uma frase que não está muito longe da verdade, pelo menos neste filme.

Nelly é, de facto, extremamente bela – às vezes até demais – e sensual e, mesmo que o não faça a propósito, é algo que simplesmente não consegue evitar. Quanto aos homens não se poderia dizer que os evita mas, na verdade, nem nós nem o marido temos provas que atestem a sua infidelidade. E é aqui que todo o filme dá a reviravolta: pois então, quando o marido já vê mais outros homens do que vê o mulherão com quem está casado e que tête-à-tête lhe faz juras de amor.

Verdade verdade: é que mais perigoso do que uma mulher bonita, só mesmo um homem muito ciumento. Paul não dorme: ora são as dívidas, ora uma mulher que não sabe que elas existem e que teima em comprar comprar, mas, antes de tudo isto, uma mulher tão bonita que dificilmente encontraríamos pessoa capaz de a ignorar – e este sim é o verdadeiro motivo das insónias. Começam as perseguições, os interrogatórios (quase policiais), as tareias e Nelly vai cedendo e mantendo-se, porque, apesar de tudo, é o marido e um casamento é sempre um terreno de estabilidade.

Do início de um casamento para o declínio o caminho é rápido e de um são para um louco idem. Pois quando estamos a chegar ao final do filme vemos já um Paul que ouve e vê coisas, e pessoas imaginárias e médicos a surgirem no meio da chuva. De facto, não estava ninguém na rua, apenas a tempestade que, agora sim, combina com a vida deste casal.

Se Nelly está e fica ou não amarrada nesta situação não conseguimos realmente perceber. A verdade é que histórias como estas, à semelhança do filme, não têm fim e que mesmo que voltemos a um cenário onde reina o sol e a tranquilidade, o inferno está sempre lá para nós porque ele não habita cá fora mas na nossa cabeça.

Anúncios

Sobre Cinema Francês Visto em Português

Já muito se falou e continua e continuará a falar de cinema francês e, nesse sentido, pouco posso acrescentar teoricamente ao que já foi dito. Ainda assim, e porque sou teimosa, e porque gosto realmente muito de cinema francês, esta é a minha tentativa. Desculpo-me então vestindo-me de nietzschiana: "não há a coisa-em-si, há perspectivas", dizia ele. Não há cinema-em-si, há perspectivas. Esta é a minha, muito apaixonada e parcial e do meu "canto" como só assim poderia ser.
Esta entrada foi publicada em Claude Chabrol com as etiquetas , , , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s