“La passion de Jeanne d’Arc”, de Carl Theodor Dreyer

Melhor sorte não teria, ou não começasse eu por falar num dos filmes mais emblemáticos do cinema francês.

Os muitos caminhos conturbados que este filme percorreu até esta cópia chegar agora a mim, admiro mas não me detenho. Prefiro guardar todo o meu elogio para a verdadeira obra de arte a preto e branco a que assisti.

Joan d’Arc apresenta-se-nos como a cara que nos pede clemência, ao mesmo tempo que ignora que a tenhamos para consigo. Mulher no meio de homens, cuja sensibilidade fica porta fora de julgamento, sofre com lágrimas infindáveis que me quebram o coração a mim – não por demais sensível – e a todos quantos as testemunham. Num rosto feminino, cujas feições são tão belas que quase pedem androginia para o descrever, paramos porém diante dos seus olhos que choram sofrimento e indignação. Estes olhos sempre vidrados das lágrimas que expulsam sem parar, interpreto-os eu como reflexo da nossa condição de submissão e acusação a que estamos constantemente sujeitos, numa sociedade cujos malditos juízes se passam pelos mais fiéis benfeitores, ignorando a todo o custo as verdadeiras acções de louvor. Talvez por isso, não posso deixar de sentir cumplicidade com a mulher com quem partilho o nome e ao mesmo tempo revolta, não já por aqueles juízes, mas pelos “opressores” meus contemporâneos.

Por isto mesmo, a actualidade deste filme para além do seu tempo é inegável e, além disso, mulher ou homem, duvido que não nos deixemos afectar intemporalmente com a figura de Joan. Além do mais, ela não é simplesmente a heroína: é também a mulher estupidamente bela que a fotogenia de Carl Theodor Dreyer não deixa de enaltecer.

Todos estes rostos, captados constantemente em muito grande plano, são o motivo pelo qual fiquei colada ao filme e escrevi estas palavras com a rapidez com que Fernando Pessoa afirma ter escrito a Chuva Oblíqua. (Mas, enfim… Desculpem-me a prosa e as palavras bem menos poéticas.)

Da condenação não se escapou Joan d’Arc, que escolheu a verdade acima do medo. Sem as roupas (de homem, que ela é tão forte que viril), sem o cabelo, sem a coroa, e sem o respeito, mas sempre com a honra… Talvez seja este o conselho… E viva à França!

P.S.: De lamentar o toque de TELEMÓVEL que, num FILME MUDO, se fez ouvir repetidamente, mesmo mesmo durante os minutos sôfregos e reveladores da condenação de Joan. Para além do desrespeito imenso que sempre considerei destas situações, tal acontecimento impediu-me de estar realmente concentrada nas imagens do rosto de Joan quando na fogueira. Se há lá coisa que odeio é perder imagens belas por distracções alheias. Vá, a sério!, é importante que se respeite minimamente o cinema.
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Sobre Cinema Francês Visto em Português

Já muito se falou e continua e continuará a falar de cinema francês e, nesse sentido, pouco posso acrescentar teoricamente ao que já foi dito. Ainda assim, e porque sou teimosa, e porque gosto realmente muito de cinema francês, esta é a minha tentativa. Desculpo-me então vestindo-me de nietzschiana: "não há a coisa-em-si, há perspectivas", dizia ele. Não há cinema-em-si, há perspectivas. Esta é a minha, muito apaixonada e parcial e do meu "canto" como só assim poderia ser.
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